Os perigos da concentração
Quando você aposta tudo num só ativo, o mercado tem um jeito peculiar de te lembrar que era uma péssima ideia
Fala pessoal, bora pro pregão?
Os perigos da concentração de portfólio
Quando você aposta tudo num só ativo, o mercado tem um jeito peculiar de te lembrar que era uma péssima ideia
Tem uma cena clássica no mercado brasileiro: o investidor que descobriu as ações da Petrobras lá em 2004, dobrou o patrimônio, triplicou, ficou tão animado que foi colocando mais e mais. Em 2008, enquanto o papel voava na crista da onda do pré-sal, ele já tinha 80% do portfólio numa única empresa estatal. A gente sabe como terminou: de 2010 a 2016, PETR4 perdeu cerca de 75% do valor.
Essa não é uma história não é de azar.. é de concentração. (você pode usar o caso da OGX, MGLU e tantos outros para contar a mesma história).
O problema com concentrar demais não é que você vai necessariamente perder… é que você vira refém de variáveis que estão completamente fora do seu controle. No caso da Petrobras, eram: preço do petróleo, câmbio, política de preços do governo e, de brinde, o maior escândalo de corrupção da história do país. Nenhum valuation resolve isso.
O raciocínio que leva alguém a concentrar é quase sempre o mesmo, e nunca faz sentido:
“Eu conheço esse ativo muito bem”
“Meu retorno até agora me prova que estou certo”
“Diversificar é para quem não sabe o que está fazendo”
O mercado adora esse tipo de investidor. Não porque vai recompensá-lo, mas porque vai encontrar a janela exata para cobrar a conta. Quem colocou demais em IRB antes da carta da Squadra em 2020 sabe do que estamos falando.
O ponto que os defensores da concentração costumam ignorar é a assimetria do tempo. Você pode ter razão por dois, três, cinco anos. O portfólio cresce, a tese se confirma, o ego acompanha. Mas basta um trimestre ruim, uma CPI, uma mudança de CEO ou uma decisão do governo para apagar anos de ganho.
Diferente de quando você erra num portfólio diversificado, onde o dano é localizado, quando você erra concentrado, a dor é total.
A diversificação não é falta de convicção. É o reconhecimento de que o mercado é complexo o suficiente para surpreender até os melhores.
Outro caso famoso: os funcionários da Oi que tinham boa parte do FGTS e das economias investidas em ações da própria empresa. Quando ela entrou com o maior pedido de recuperação judicial da história do país, em 2016, perderam emprego e patrimônio ao mesmo tempo — o golpe duplo que a concentração reserva para os momentos mais inconvenientes.
A NASA tem uma obsessão saudável com o que chama de "pontos únicos de falha", aquela peça ou processo que, se der pau, derruba o sistema inteiro. A solução deles é simples na teoria e cara na prática: redundância onde o risco é maior. Seu portfólio merece o mesmo tratamento.
Afinal, colocar todos os ovos na mesma cesta nunca raramente dá certo para quem investe!
Buybacks: o vento de cauda que virou brisa
Durante anos, recompras de ações foram aquele vento de cauda silencioso que ajudava, constantemente, as bolsas a subir - as big techs que o diga. Mas, em 2026, esse vento começou a perder força.
As recompras no último trimestre foram de menos de US$ 17 bilhões. Uma queda de 55% em relação ao trimestre anterior e de 71% na comparação anual.
E isso não é exatamente coincidência… a nova prioridade tem nome e sobrenome: inteligência artificial. Construir data centers, comprar chips, investir em infraestrutura… tudo isso custa muito caro. Assim sendo, menos espaço restou para aquele agrado clássico ao acionista.
→ Apple e Microsoft reduziram o ritmo. Meta e Alphabet simplesmente zeraram as recompras.Amazon e Tesla continuam nem aí pra isso (como sempre)
A Nvidia é um caso a se olhar de perto: no último ano fiscal, ela gastou cerca de US$ 40 bilhões recomprando ações (alta de 19%). Mas no 4T25 foram menos de US$ 4 bilhões, o menor nível em dois anos. Ali caixa não é exatamente um problema.
(btw, hoje tem earning call de Nvidia e você vai ler tudo sobre o balanço no MoneyDrop de amanhã!)
A empresa tinha cerca de US$ 58,5 bilhões autorizados para recompras. E analistas já falam de um novo programa que poderia chegar perto de US$ 150 bilhões.
No agregado, as recompras do S&P 500 seguem estáveis: cerca de US$ 256 bilhões no último trimestre, alta de 12% no trimestre, mas levemente abaixo do ano passado.
Se antes os buybacks eram um dos grandes suportes para o mercado, agora eles começam a dividir espaço com um novo protagonista: o capex em IA. Talvez seja hora de encontrar um novo vento de cauda..
No dia de hoje (ou ontem) nos mercados…
Hoje, mas em 2021: o Bitcoin despencava 30%, para cerca de US$ 30.000, depois que a China reprimiu as criptomoedas e Elon Musk cancelou os pagamentos em Bitcoin da Tesla. A queda em um único dia eliminou cerca de US$ 1 trilhão em valor de mercado das criptomoedas.
Hoje, mas em 1999: a eToys, uma startup de varejo online, abriu seu capital na Nasdaq. Inicialmente, esperava-se que o preço das ações fosse de US$ 10-12, mas elas foram subscritas a US$ 20 e quadruplicaram antes da abertura do pregão. A primeira negociação ocorreu a US$ 83,5. As ações fecharam o dia a US$ 76,5, um retorno de 282,8% em um único dia. Apenas 19 meses depois, em fevereiro de 2001, a empresa anunciou que entraria com pedido de falência.
Aspas
“Não coloque todos os ovos na mesma cesta.”
Miguel de Cervantes, Dom Quixote (1605)
(a ironia é que essa frase tem mais de 400 anos e o mercado ainda ignora ela toda vez que um ativo começa a subir em linha reta)
Memes:
Quer saber como investir e preparar sua carteira para ser resiliente a vários cenários? Vamos conversar sobre como posicionar sua carteira!
Quando as turbulências do mercado e as notícias não param de surgir, o Expresso Financeiro te ajuda a filtrar o ruído e insights para ajudar você na vida financeira!







