A maior aposta da IA vem com um boleto de US$ 518 bilhões
A receita da Anthropic multiplicou por 12, e o prejuízo correu junto
Imagine você pedir R$500 mil reais emprestados, ganhando apenas R$ 5 mil por mês… e agora imagine assumir compromissos de US$ 518 bilhões, tendo faturado apenas US$ 4,6 bilhões no ano. Agora imagine esse negócio valer mais de US$ 2 trilhões. Esse é o retrato do prospecto do IPO da Anthropic, visto pela Reuters, e o mercado vai ter que decidir se acha isso corajoso ou… criativo.
A tese é ambiciosa: a IA vai transformar a economia mais do que a industrialização, a eletricidade e a internet. O crescimento ajuda a defender o argumento, já que a receita foi multiplicada por 12 em 2025, para quase US$ 4,6 bilhões. O problema é o outro lado da conta. O prejuízo líquido chegou a US$ 42 bilhões. Para uma empresa de cinco anos de idade, é o tipo de número que faz CFO reler o slide 2x.
Para onde o dinheiro vai, e o que segura a operação:
Computação e infraestrutura: US$ 7,33 bilhões em 2025, o triplo de 2024 e mais da metade dos US$ 12,65 bilhões de despesas operacionais.
Caixa: US$ 20,28 bilhões em 31 de dezembro.
Clientes: quase um quarto da receita veio de apenas dois, e muitos dos maiores não têm contrato de longo prazo.
Aí entra o valuation… a meta passa de US$ 2 trilhões, mais que o dobro dos US$ 965 bilhões estimados em maio. Na prática, são cerca de 435x a receita de 2025: quem compra paga pelo filme inteiro, não pelo primeiro episódio.
A estreia deve ficar para depois das eleições americanas de novembro, e a OpenAI, que já pediu confidencialmente para abrir capital, deve listar no início de 2027. Quem abre a fila define a régua para o resto…
O prospecto entrega uma empresa que cresce como nenhuma outra e gasta na mesma velocidade!
A BlackRock olhou pro Brasil e viu desconto, não risco
Samuel Vecht, gestor de mercados emergentes da BlackRock, chamou a Bolsa brasileira de “clear buy”. O argumento não foi “o Brasil vai melhorar”, e sim… “o Brasil não precisa melhorar muito”.
Enquanto meio mercado local trata a Bolsa brasileira como aposta de quem gosta de sofrer, a BlackRock está comprando mais do que o índice manda.
A tese é simples: preço, não milagre. Segundo Vecht, bancos brasileiros negociavam historicamente entre 10-12x o lucro, hoje estão entre 5-7x. Varejistas que chegaram a valer 25x lucro hoje giram em torno de 6x. A economia não precisa fazer nada de extraordinário, só parar de piorar, para essas ações reprecificarem.
A aposta não é em crescimento, é em corte de juros. Vecht acha que, seja quem for eleito em 2027, o 1° ano de mandato costuma trazer algum ajuste fiscal, o que abriria espaço pra cortes de Selic. Com juros tão altos hoje, ele argumenta, uma queda pequena teria impacto desproporcional no preço das ações domésticas: bancos, fintechs, varejo, consumo, utilities.
Tem também uma conta de alocação global que ninguém em Faria Lima gosta de lembrar: a América Latina responde por 7% do PIB mundial e cerca de 0,1% dos índices de ações globais. O Brasil sozinho é a décima maior economia do planeta e pesa 4% no índice de mercados emergentes
No fundo UCITS que ele administra, atrelado ao índice de emergentes, a BlackRock está com 11% em Bolsa brasileira, 7p.p acima do benchmark, e 35% em China, 15 p.p acima. São os dois maiores overweights da carteira.
O risco que ele mais teme não é doméstico. É uma geração inteira de investidores que, desde 2008, só viu uma história funcionar: Estados Unidos e big techs batendo todo mundo. Pra ele, essa concentração de capital tende a produzir retornos futuros mais baixos exatamente onde todo mundo está, e mais altos onde ninguém quer estar.
Vecht não descarta ser pego de surpresa, mas que o pessimismo, já está no preço. Pra ele, quem decide o próximo movimento da Bolsa brasileira, nesse cenário, não é a economia… é a Selic.
Lembrete: múltiplo baixo não é sinônimo de barato… é sinônimo de “o mercado já precificou o pior”. A diferença entre os dois só aparece depois.
Nubank quer comprar um atalho para a Europa
A possível compra do Monzo poderia levar o Nubank direto para um mercado desenvolvido, mas o preço e a execução assustaram Wall Street.
O Nubank pode estar prestes a fazer a maior compra da sua história, e o mercado não gostou muito da ideia. As ações chegaram a cair -10% na Nasdaq após a notícia de que o banco negocia a aquisição do britânico Monzo, numa operação em dinheiro e ações que poderia avaliar a fintech entre £ 8-10 bilhões.
Esse é o lado bonito da tese: além da diversificação geográfica, a operação reduziria a dependência de mercados emergentes como Brasil, México e Colômbia e colocaria o Nubank dentro de um sistema financeiro mais estável.
O lado feio da tese: é que integrar duas operações em países, moedas e regulações diferentes significaria mais capital segregado, compliance mais caro e uma camada completamente nova de complexidade. Tudo isso justamente enquanto o Nubank também começa sua expansão nos Estados Unidos e ainda tenta ganhar escala no México.
Também tem a etiqueta de preço. Pelos valores ventilados, o Monzo estaria sendo avaliado entre 93-116x seu lucro e cerca de 5x sua receita. O próprio Nubank negocia perto de 21x lucro e 3,5x receita. Ou seja, o negócio é caro e pode desviar o foco das expansões que já estão em andamento.
O histórico de aquisição do Nu também não é dos melhores. A maior aquisição foi a Easynvest, comprada por cerca de R$ 2 bilhões antes do IPO, e que não colheu os frutos de toda a sinergia vendida. Depois disso, as outras aquisições foram muito menores, geralmente visando tecnologia e talentos, bem longe da complexidade de absorver um banco britânico com milhões de clientes.
Comprar o Monzo seria uma maneira rápida de deixar de ser apenas uma potência latino-americana e colocar um pé grande na Europa. Comprar o atalho pode ser rápido… Fazer ele valer £ 10 bilhões é outra história.
PS: o Nu agora vale US$60 bilhões e cai -25,6% no ano.
No dia de hoje (ou ontem) nos mercados…
Hoje, mas em 1958: o índice SP500 fechou acima de 50 pontos pela primeira vez.
Aspas
“The greatest trick the market plays on beginners is making you think luck is skill. Mr. Market waits for you to double or triple down on your next bet and then it teaches you lesson in how skilled you were.“
Memes:
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