Fala pessoal, bora pro pregão?
As empresas ensinam “compre na baixa, venda na alta”… mas fazem exatamente o contrário! Recompras bateram recorde no pico da bolha da internet e afundaram 85% bem quando a bolsa ficou barata
Todo investidor de fim de semana já ouviu o mantra básico: compra na baixa, vende na alta. Curiosamente, quem parece nunca ter recebido esse memorando são as próprias empresas de capital aberto, na hora de decidir quando recomprar suas ações.
Warren Buffett, que normalmente é a educação em pessoa, perdeu a paciência com os críticos de buyback há alguns anos: “quando dizem que toda recompra prejudica acionistas ou o país, ou beneficia especialmente os CEOs, você está ouvindo um analfabeto econômico ou um demagogo de língua afiada — personagens que não são mutuamente excludentes”.
Empresa precisa devolver caixa pro acionista em algum momento pra valer a pena ser dona dela, e a diferença entre fazer isso via dividendo ou recompra costuma ser pequena. Buyback aumenta a fatia do investidor de longo prazo numa empresa menor, em vez de entregar dinheiro que ele talvez nem precise (e ainda pagar imposto sobre isso). Pra gestão, dividendo cria expectativa permanente; buyback pode ser ligado e desligado quando quiser.
O problema é que “quando quiser” nem sempre é quando deveria. Recompra vira má ideia quando a ação está cara. E mesmo assim, tem empresa que faz de qualquer jeito, principalmente as que distribuem muita opção de ação pros executivos e querem “absorver” essas ações baratas emitidas.
→ A própria Berkshire Hathaway, que nunca pagou dividendo, chegou a suspender recompras por quase dois anos, empilhando um caixa recorde em vez de comprar na euforia.
Semana passada tivemos o anúncio de recompra da SK Hynix(a maior recompra da história da Coreia do Sul) fez a ação disparar. Só que o timing é, no mínimo, curioso: mesmo depois de uma queda recente, o papel ainda estava 470% acima do ano anterior. A empresa teve munição de sobra pra comprar durante toda essa disparada e não fez nada. Mais estranho ainda: mês passado, ela vendeu praticamente o mesmo volume de ações pra investidores americanos, na maior venda de ações da história por uma empresa estrangeira, a um preço efetivo 50% mais alto do que o de hoje.
Pelo menos a SK Hynix vendeu caro e está comprando mais barato agora. As empresas americanas costumam inverter essa lógica:
No trimestre em que a bolha da internet estourou, o S&P 500 bateu recorde de recompras, com um “yield” de buyback (valor recomprado sobre o valor do índice) de apenas 1,2%. Três anos depois, gastaram 40% menos… mas o yield ficou um terço maior, porque as ações tinham ficado bem mais baratas.
Na grande crise financeira de 2008: as recompras bateram recorde em 2007, junto com o topo da bolsa. Na primavera de 2009, quando tudo estava na pechincha, as recompras já tinham desabado 85%.
Recompra não é maquiagem contábil nem rouba capital da empresa, desde que feita com inteligência. Mas às vezes pagar dividendo, reduzir dívida ou guardar caixa pra um dia de chuva é a escolha mais esperta. Executivo não controla o ciclo econômico nem o preço da ação… só que ele é justamente quem está na melhor posição pra perceber quando ela está cara!
Trump quer mexer no imposto
Dois terços dos ganhos de capital de 2023 vieram de quem já tem mais de US$ 1 milhão de renda
Que louco seria imagina um imposto que fosse calculado apenas sobre o lucro “de verdade” e ainda descontando a inflação do meio do caminho.. Parece óbvio pensar assim, mas não para os governantes. Mas é esse movimento que o governo Trump está namorando agora: indexar os ganhos de capital à inflação, cobrando imposto só sobre o que sobrar depois de corrigido o efeito da corrosão do poder de compra.
Quem trouxe o assunto à tona foi Kevin Hassett, diretor do Conselho Econômico Nacional, numa entrevista à Fox News e o apresentador, Larry Kudlow, confirmou que já bateu esse papo com o próprio presidente. Ou seja, saiu do “e se” pra virar pauta de corredor.
A venda é fácil: “isso ajuda a classe média a guardar mais do que ganha”. O problema é que a matemática discorda educadamente da propaganda.
→ Dois terços de todo ganho de capital declarado em 2023 vieram de gente com pelo menos US$ 1 milhão de renda anual. Quem ganha entre US$ 75 mil e US$ 100 mil, o americano mediano de carteirinha, representou pouco mais de 1% do total.
Pra quem tem ações, imóveis e fundos há décadas, corrigir o ganho pela inflação é economia gigante. Pra quem tem a poupança do banco e um 401(k) modesto, é irrelevante… porque não tem ganho de capital relevante pra indexar.
A ideia, aliás, não é nova… ela é praticamente um clássico. Republicanos flertam com ela desde o governo George H.W. Bush. Ano passado, os senadores Ted Cruz e Thom Tillis até formalizaram um projeto de lei indexando ganhos de capital pra ativos segurados por mais de três anos. O texto foi parar na Comissão de Finanças… e simplesmente não saiu de lá.
O projeto “traz uma justiça necessária ao sistema tributário e ajuda famílias a ficarem com mais do que ganham”. Só que “família” aqui parece um eufemismo generoso pra “quem já tem carteira de investimento robusta”. Todavia, conceitualmente acredito que esse deveria ser o modus operandis de toda tributação!
A Evergrande morreu. A ressaca dela… ainda não.
China já injetou US$ 1 trilhão no setor imobiliário e ainda tem até 40% dos imóveis pré-vendidos sem terminar
O modelo que a China sustentou por décadas no mercado imobiliário foi: vender o apartamento antes de erguer a primeira parede, e usar a grana do comprador pra financiar a obra. Funcionou… até não funcionar mais.
O estouro veio com a Evergrande, em 2021. A incorporadora quebrou o pacto de confiança que sustentava esse modelo inteiro, e a China vem há cinco anos tentando limpar os cacos. O boletim mais recente: cerca de 7,5 milhões de casas pré-vendidas foram entregues no ano passado… mas isso representa só entre 15% e 40% de todo o estoque de imóveis pré-vendidos que ainda seguem inacabados, segundo o Banco Mundial.
E olha que não foi por falta de dinheiro. Pequim já jogou mais de 7 trilhões de yuans, cerca de US$ 1 trilhão, em empréstimos pra tentar salvar projetos viáveis em andamento. Mesmo assim, o setor continua encolhendo:
Novas construções residenciais: caiu 24,6%
Entregas de obras: caíram 25,5%
Vendas de imóveis: caíram 12,7%
É contra esse pano de fundo que Hui Ka Yan, fundador da Evergrande, foi condenado à prisão perpétua semana passada, por uma lista de crimes que inclui emissão fraudulenta de títulos. Em 2017 ele era o homem mais rico da Ásia, com uma fortuna estimada em US$ 45 bilhões… agora vai passar o resto da vida atrás das grades.
→ Enquanto isso, outro tribunal aceitou o pedido de liquidação por falência da Hengda Real Estate, a principal unidade imobiliária da Evergrande no continente.
As cidades chinesas entraram na briga por conta própria. Pequim afrouxou a exigência de residência pra alguns compradores de fora. Xangai reduziu o valor de entrada exigido pra segundos imóveis e criou subsídios pra quem troca a casa velha por uma nova.
A China conseguiu evitar o colapso financeiro repentino que todo mundo temia em 2021…isso é fato. Só que trocou o susto rápido por algo mais difícil de administrar: um ajuste imobiliário lento, que segue drenando a confiança das famílias chinesas anos depois de a empresa que começou tudo isso já ter sumido do mapa!
No dia de hoje (ou ontem) nos mercados…
Hoje, mas em 2041: o Google começava a negociar na Nasdaq com um preço inicial de IPO de US$ 85. Fechou o primeiro pregão em US$ 100,34, valorizando 18%
Ontem, mas em 1982: o Dow Jones subia 3,66%, coroando uma alta de 10% em uma única semana, dando início ao bullmarket da década de 1980 e marcando o fim da luta de Paul Volcker contra a inflação
Aspas
“The second you realize losing is part of the game ... and actually a fun and even exciting part ... things will change for you. I love losing ... I understand it's part of this game - micro lose to macro win”
Memes:
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